A escolha


Max Lucado (Um dia na vida de Jesus)

 

 

-Por que sempre decido fazer o que é ruim? – Perguntou a minha filha, desconhecendo que essa duvida também pertence a muitos seguidores da verdade: “Por que faço o que detesto?”, “Que loucura é essa que se encontra dentro de mim?”, Ou, talvez uma pergunta mais básica possa ser feita: “Se o pecado me separa de Deus, por que Deus não me separa do pecado?? Por que  Ele não retira de mim a escolha pelo pecado?”

Para encontrar a resposta, vamos voltar ao princípio de tudo.

Vamos retornar ao Jardim e ver a semente que tanto serviu de benção como de maldição. Vamos ver por que Deus deu ao homem… O livre arbítrio.

 

Por  trás de tudo isso está uma escolha. Uma decisão determinada, um gesto instruído. Ele não precisava fazer isso, mas assim o escolheu fazer. Sabia o preço a pagar, conhecia as implicações,estava ciente das conseqüências.

Não sabemos exatamente quando pensou em tomar essa  decisão. Não há como sabermos, pois não estávamos lá, e também não havia tempo determinado. O quando  ainda não existia, nem o amanhã ou o ontem, muito menos a próxima vez. O tempo não existia.

Não sabemos quando Ele pensou em tomar a decisão, mas sabemos que Ele a tomou. Não precisava fazer isso, mas optou por fazer.

Optou por criar.

“No princípio,  criou Deus…”

Por uma simples decisão, a história se iniciou. E existência passou a se mensurável.

A luz se formou a partir do nada.

E o dia se formou a partir da luz.

Então, vieram a existir os céus… e a terra.

E sobre a terra, a mão poderosa se pôs a trabalhar.

Esculpiu desfiladeiros, cavou oceanos, fez surgir as montanhas a partir de terrenos planos, lançou as estrelas ao ar e fez o universo reluzir.

 

Nosso sol era apenas um entre milhões e a galáxia, uma entre outras milhares. Os planetas, invisivelmente presos ao redor do sol, oscilavam pelo espaço em altas velocidades. As estrelas inflamavam  com um calor capaz de derreter o nosso planeta em segundos.

A mão responsável por tudo isso é poderosa. Ele é poderoso.

E com todo esse poder, criou todas as coisas, tão naturalmente como um pássaro canta e um peixe nada, Ele as criou. Assim como um artista não pode ficar sem pintar ou um corredor sem correr, ele não poderia deixar de criar. Ele era o criador. Para sempre e sempre, Ele seria o criador. Um sonhador e projetista incansável.

A partir da paleta do Artista Eterno, surgiu a magnificência sem par. Antes que houvesse alguém para contemplar, sua criação já estava gestante de maravilhas. As flores não apenas cresciam; elas abriam suas pétalas com toda graciosidade. As aves não apenas nasciam; eclodiam de dentro dos ovos. Os peixes não nadavam simplesmente; mas faziam uma coreografia pelos mares.

Ele deve ter amado tudo aquilo. Criadores apreciam o ato de criar. Tenho certeza que suas ordens eram plenas de prazer!

-Ei, hipopótamo,você não vai apenas andar… vai ter um gingado especial! Hiena, um latido é algo muito simples, vou ensina-la a rir! Preste atenção, guaxinim , fiz uma mascara  para você! Girafa, venha aqui um pouco, deixe-me esticar mais seu pescoço.

E assim Ele prosseguiu, fazendo fofas nuvens, adicionando mais azul aos oceanos, dando mais balanço às árvores. Os sapos aprenderam a coaxar e a saltar, A poderosa união entre a criatividade e a própria criação havia acabado de nascer.

Ele era poderoso e criativo.

E também  era amor. Ainda maior que seu poder e mais profunda que sua criatividade, havia uma característica que resumia tudo o que Ele realmente era:

Amor.

A  água pode ser molhada, o fogo pode ser quente. Mas, você não pode tirar o molhado da água e continuar a tê-la. Também não pode tirar o calor do fogo e continuar com ele.

Do mesmo modo, não pode tirar o amor Daquele que viveu antes dos tempos e continuar a compartilhar de sua existência. Pois Ele era… e é… Amor.

Esquadrinhe as profundezas do seu interior, explore cada canto; procure cada ângulo. Amor é tudo o que vai encontrar. Vá para o inicio de cada decisão que Ele tomou e o encontrará. Vá para o fim de cada história que Ele contou e também o verá.

Amor.

Não existe amargura, nem maldade ou crueldade.Apenas amor; amor impecável; intenso; vasto e puro. Ele é Amor.

Como resultado o elefante ganhou uma tromba com a qual é capaz de matar sua sede. O gatinho tem uma mãe que cuida dele. O pássaro possui um ninho onde pode descansar. O mesmo Deus, que foi poderoso o bastante para esculpir os desfiladeiros, é tão  bondoso para colocar vegetação nas bases das montanhas a fim  de mantê-las aquecidas.A mesma força que fornece simetria aos planetas leva o bebê canguru para a bolsa se sua mãe, antes de saber que está grávida.E por ser que Ele é, fez o que fez.

Ele criou o paraíso. Um santuário imaculado. Um porto seguro anterior ao temor. Um lar antes de existir um habitante. Não havia tempo, nem  morte,nem sofrimento. Um presente construído por Deus para a sua última criação. E assim que tinha terminado, Ele sabia que tudo aquilo “era muito bom”.

Mas não era o bastante.

Sua maior obra ainda não estava completa. Uma obra prima final era necessária antes que Ele parasse.

Olhe em direção aos desfiladeiros a fim de ver o esplendor do Criador. Toque as flores e veja a delicadeza que Ele colocou nelas. Escute o trovão e note seu poder. Mas, detenha-se no verdadeiro auge, e testemunhe todos os três… e muito mais.

Imagine junto comigo o que aconteceu naquele dia.

 

Ele colocou uma concha de barro sob a outra, até obter uma forma inanimada sobre o chão.

Todos os habitantes do jardim pararam para assistir ao evento. Os falcões rondavam; as girafas se espichavam; as árvores se inclinavam; as borboletas se detinham  sobre as pétalas e assistiam.

–          Você vai me amar, natureza, – Deus dizia – eu a fiz assim. Você vai me obedecer , universo, pois foi projetado para isso. Céus vocês vão resplandecer a minha glória, pois foi para esse fim que fora criados. Mas este aqui se assemelhará comigo. Ele será capaz de escolher.

Todos estavam em silêncio enquanto o Criador olhou para dentro de si mesmo e removeu algo jamais visto. Uma semente.

Ela se chama “Livre arbítrio”. A semente do Livre arbítrio.

Toda a criação se manteve em silêncio, prestando atenção na forma inanimada.

Então, um anjo falou:

-Mas o que acontece se ele escolher…

-O que acontece se ele escolher não amar? – o Criador finalizou. – Venha que eu te mostrarei.

Desgarrados do mundo presente, Deus e o anjo foram passear pelo reino do futuro.

-Lá está, veja os frutos da semente do Livre arbítrio, tanto o doce como o amargo.

O anjo respirou bem fundo com o que viu. Amor espontâneo; devoção voluntária; opção pela ternura.Ele nunca tinha visto algo assim. Sentiu o amor de Adão, ouviu a alegria de Eva e suas filhas, viu o alimento e o trabalho sendo compartilhados, absorveu a bondade  e se maravilhou com o carinho.

-O céu nunca viu  tamanha beleza, meu Senhor. Verdadeiramente , e a sua maior criação.

-Mas você viu apenas a parte doce. Agora testemunhe a parte amarga.

Um  mau cheiro envolveu os dois. O anjo ficou horrorizado e gritou:

-O que é isso???

O Criador proferiu apenas uma palavra:

-Egoísmo!

O anjo ficou mudo enquanto passeavam entre os séculos de repugnância. Ele nunca tinha visto  tamanha imundície, corações putrefatos, promessas quebradas, lealdades esquecidas. Os filhos da criação vagando cegamente em labirintos solitários.

-Este é o resultado do  livre arbítrio? – Perguntou o anjo.

-Sim.

-Eles irão rejeitar o Senhor??

-Sim.

-Eles nunca retornarão para ti??

-Alguns sim, mas a maioria não.

-O que precisa acontecer para que eles possam escutar?

O criador prosseguiu a caminhada no tempo, cada vez mais para o futuro, até chegar ao lado  de uma árvore. Uma árvore que seria modelada em  um berço. Até ali, naquele lugar, ele podia sentir o aroma da forragem seca que o envolveria.

Com um outro passo para o futuro, ele parou diante de outra árvore. Ela era solitária, a soberana teimosa em um monte sem vegetação. O tronco era grosso e a madeira forte. Logo ela seria cortada. Podada. Seria colocada sobre o cume rochoso de outro monte. E em breve ele seria pendurado nela.

Sentiu a aspereza da madeira contra as costas que não tinham experimentado aquilo.

-Você vai para lá??? – O  anjo perguntou.

-Vou sim.

-Não há uma outra maneira?

-Não, não há.

-Não seria mais fácil não plantar a semente? Não seria mais fácil não fornecer o livre arbítrio?

-Seria. – respondeu lentamente o Criador – Mas remover o livre arbítrio é remover o amor.

Ele, então, olhou ao redor do monte e previu uma cena. Três figuras penduradas em três cruzes, de braços abertos , cabeças caídas para frente. Gemiam à medida que soprava o vento.

Homens vestidos com uniforme de soldado sentavam-se no chão, próximos ao trio. Brincavam em meio a poeira e riam.

Homens vestidos de religiosos ficavam à distância. Sorriam. Arrogantes e pretensiosos. Pensavam que estavam protegendo a Deus, matando, naquele momento, o falso deus.

Mulheres vestidas de tristeza se amontoavam aos pés do monte. Mudas. Tinham os rostos marcados de lágrimas, olhos baixos. Uma colocou o braço sobre a outra e tentou tirá-la daquele lugar, mas ela não sairia dali.

-Vou ficar. – disse com firmeza – vou ficar.

Todo o céu se levantou para lutar. Toda a natureza se pôs de pé para resgatar. Toda a eternidade se posicionou para proteger. Mas o Criador não proferiu nenhuma ordem.

-Isso deve ser feito… – Ele disse e se retirou.

Mas quando Ele pisou de volta ao tempo, ouviu o grito que um dia Ele mesmo soltaria:

“Meu Deus, meu Deus! Por que me abandonou?”. Retorceu-se diante da agonia futura.

Então, o anjo falou novamente:

-Seria menos penoso…

O criador interrompeu educadamente:

-Mas não seria amor.

Eles voltaram  para o Jardim. O Criador olhou com toda sinceridade para sua criação de barro. Um vento de amor percorreu todo seu ser. Tinha morrido pela criação antes de cria-la. A forma de Deus inclinou-se sobre a face esculpida e soprou o fôlego. A poeira agitou-se sobre os lábios da nova criatura. O peito inchou, rachando o barro avermelhado. As bochechas criaram formas, um dedo se moveu e os olhos se abriram.

Mas incrível que o movimento da carne foi a agitação do espírito. Todos que conseguiam ver o que nunca fora visto antes, palpitavam.

 Talvez tenha sido o vento que falou primeiro. Talvez foi o que a estrela viu naquele movimento que a fez brilhar pelo resto da vida. Talvez sobrou para que um anjo sussurrasse o seguinte:

-Parece… assemelha-se muito … é ele próprio!

O anjo não estava falando da face, das características ou do corpo. Ele estava olhando para o interior, para a alma.

-É eterno! – falou o outro, ofegante.

Dentro do homem, Deus colocou uma semente divina. Uma semente dele mesmo. O Deus de poder criou o ser mais poderoso da terra. O Criador fez, não somente uma criatura, mas um outro criador. E Aquele que escolheu amar criou alguém que poderia amá-lo de volta.

AGORA A ESCOLHA É NOSSA.

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